Capítulo 5
Provedores e armazenamento
Se não existe um servidor da rede, quem guarda os arquivos? A resposta é: vários computadores escolhidos pelos próprios usuários.
Resumo em cinco linhas
- Um provedor é um computador que guarda pedaços de conteúdo e os entrega a quem pede.
- Você escolhe quais provedores guardam o quê — e pode mudar de ideia.
- O navegador também ajuda, mas com limites rígidos de espaço e de envio.
- O uso de espaço é recalculável: dá para conferir a partir da lista de arquivos.
- Quem guarda não é autor: a responsabilidade pelo conteúdo é de quem publicou.
O que é um provedor
Pense num guarda-volumes. Ele não é dono da sua mala, não abre sua mala, mas guarda enquanto você precisa e devolve para quem você autorizou.
Um provedor faz isso com dados: guarda arquivos identificados por uma e entrega quando alguém pede. Ele não precisa saber o que está guardando, e no caso de conteúdo privado realmente não sabe.
Pode ser o computador de uma pessoa, uma máquina alugada, uma empresa pequena ou um servidor doméstico ligado 24 horas.
Sempre-ligado
Fica disponível o tempo todo. É o que garante que o conteúdo exista quando você não está online.
Oportunista
Funciona só enquanto está aberto — o caso do seu navegador. Ajuda, mas não serve como única cópia.
Especializado
Pode cuidar só de um tipo: armazenar, retransmitir, distribuir vídeo de chamada ou indexar conteúdo público.
Por que a rede precisa deles
A tentação é dizer “cada um guarda o que é seu”. Isso não funciona, por três motivos simples.
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O celular dorme
Se você publica um vídeo e desliga o aparelho, ninguém consegue assistir. Alguém precisa estar acordado para entregar.
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O endereço muda
A conexão de casa troca de endereço, o celular muda de rede. Não dá para apontar um link para o seu aparelho e esperar que funcione amanhã.
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Ninguém está sempre online
Mensagens precisam ficar depositadas até o destinatário aparecer. Isso exige um escaninho que não é o aparelho de ninguém.
Não existe um servidor central que guarda tudo. Existem muitos provedores independentes, e nenhum deles precisa conhecer o conjunto. Se um desligar, o conteúdo continua nos outros — desde que esteja replicado.
Quanto está ocupando
Você pode ver, por conta, quanto espaço está sendo usado em cada provedor. E pode adicionar ou remover provimento de uma conta ou de um conteúdo específico.
- 1. Sua conta tem arquivos espalhados por provedores escolhidos por você.
- 2. O provedor 1 guarda 1,2 GB. O 2 guarda 1,9 GB. O 3 guarda 0,3 GB.
- 3. Você pede a lista do que está guardado onde.
- 4. Cada provedor devolve um recibo com a lista de arquivos — e a soma.
- 5. Como a soma vem da lista, ninguém consegue inflar o número sem inventar arquivo.
Esse detalhe — o número sai da lista, não da palavra do provedor — é o que permite cobrar sem precisar confiar. Se o recibo diz 1,2 GB, qualquer pessoa pode somar os arquivos listados e checar.
O provedor pode errar para menos (e sair no prejuízo), mas não consegue errar para mais sem listar arquivos que não existem — o que seria imediatamente detectável.
Quem paga por isso
Guardar texto e fotos é barato. Vídeo não é. O custo maior não é o disco: é a banda de saída, ou seja, entregar o mesmo vídeo para muita gente.
O projeto não define preço nem cobra nada. Ele apenas mede e mostra. Quem opera o provedor decide se cobra, quanto cobra e de quem — e essa conversa acontece fora do sistema.
Provedor pessoal
Um amigo ou a própria família guarda. Custo baixo, escala pequena, funciona bem no começo.
Provedor comercial
Alguém cobra para guardar e entregar. Precisa de medição confiável — é por isso que o recibo existe.
Espelho público
Quem tem interesse no conteúdo guarda uma cópia. Só funciona para o que é popular.
Cobrar ou não é escolha de quem opera o provedor. O sistema não favorece nem penaliza nenhum dos dois modelos — e não tem como saber quanto foi pago.
Quem responde pelo conteúdo
Responsável
- Quem criou o conteúdo.
- Quem o divulgou.
- O grupo, quando o conteúdo é do grupo.
Não é responsável
- Quem apenas guardou os arquivos.
- Quem apenas entregou os pacotes.
- Quem apenas indexou o que era público.
Essa separação não é uma invenção do projeto: é como o direito brasileiro trata intermediários. Mas ela tem consequência prática. O provedor continua obrigado a cumprir ordem judicial de remoção, e por isso existe um canal de notificação e um registro de tudo o que foi removido.
A distinção também vale para o usuário: guardar um arquivo de outra pessoa não transforma você no autor dele. Publicar, sim.
No Brasil, provedores com fins econômicos têm obrigações de guarda de registros de acesso. Um provedor comercial não pode prometer que não sabe de onde veio a conexão. Um nó doméstico está em outra situação. É uma diferença que o sistema registra, não esconde.
Para quem quer o detalhe
Por que o arquivo tem “endereço” em vez de nome
O endereço de um arquivo é calculado a partir do conteúdo dele. Isso traz duas propriedades: o mesmo arquivo tem sempre o mesmo endereço (então cópias são reconhecidas), e qualquer alteração muda o endereço (então não dá para trocar o conteúdo sem ser notado).
O efeito colateral é que arquivos diferentes com o mesmo conteúdo ocupam um lugar só. E que não existe “renomear”: o nome é uma etiqueta guardada à parte.
Como o conteúdo é dividido em pedaços
Vídeos grandes são cortados em blocos. Cada bloco tem seu próprio endereço, e um índice lista a ordem. Assim dá para baixar de vários provedores ao mesmo tempo, continuar de onde parou e trocar um bloco corrompido sem refazer tudo.
O que acontece se um provedor desligar
Quem pediu o arquivo simplesmente pede a outro provedor que tenha o mesmo bloco. O problema só existe se aquele bloco não estiver em nenhum outro lugar — por isso a escolha de quantas cópias manter é uma decisão importante, e o sistema avisa quando uma conta está com pouca réplica.
Remover conteúdo de verdade
Apagar o índice não apaga os blocos. Para remover de fato, é preciso pedir a cada provedor que apague os blocos correspondentes. Enquanto alguém tiver uma cópia, o conteúdo continua acessível por aquele endereço.
É a mesma razão pela qual “apagar da internet” é difícil em qualquer sistema distribuído — a diferença é que aqui você sabe exatamente onde estão as cópias.